quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Suleman


“This is Suleman. He will be our monkey for today”, diz Abraham, apontando para um rapaz alto, magro, de pele escura e brilhante.
Considerei-o durante alguns segundos, tentando abstrair-me do comentário grosseiro do nosso guia. Era muito jovem (14 anos, soube mais tarde) e vestia jeans brancos e uma t-shirt amarela dos Led Zeppelin.
Suleman acompanhou-nos durante toda a visita à plantação, sempre num silêncio respeitoso e tímido. A sua função era a de colher espécimes de especiarias e frutos. Colocava-as nas cornucópias que cada uma de nós levava nas mãos em jeito de cesto de compras, e que ele fizera a partir de folhas de bananeira.
Este pequeno objecto era apenas uma amostra do que as suas jovens mãos conseguiam extrair dos recursos que tinha à volta. Antes de a visita terminar, o seu talento produzira óculos (ramas de ananás), colares (folhas e flores de mandioca), pulseiras, chapéus e ainda os saquinhos onde colocámos as especiarias vendidas na improvisada jungle boutique.
Calhou ser ele a escoltar-me de volta ao Jeep onde fui buscar mais rebuçados para a pequenada que por ali andava. No regresso, perguntou-me:
- Quantas línguas falas?
Respondi-lhe.
– E tu?, continuei.
- Inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e um bocadinho de holandês, disse orgulhoso.
- Quem te ensinou isso tudo?!!
- Os turistas.
- E, não vais à escola?
Encolhe os ombros:
- Hoje não há….
No fim da visita, cabe-lhe a ele cortar os bocadinhos de fruta que nos dão a provar. Com um olhar de desafio, Sule apresenta cada fruta nova numa língua diferente. Vou-lhe respondendo “muito bem” na língua apropriada e, de repente, é como se estivesse de volta a casa a ensinar a minha sobrinha.


Estou sozinha à espera que o resto das meninas acabe as compras.
Sule senta-se ao meu lado e, continuando ocupado a tecer uma folha de bananeira, pergunta, baixinho:
- Mama, siete contenta?
A pergunta deixa-me desconcertada. Em suaíli a palavra “mama” significa senhora e não mãe, mas foi dita com um tal carinho, que me emocionei.
De facto, este rapaz poderia bem ser meu filho...

Zanzibar, 2009

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mzungu, sou eu!


A menina abre a porta e, ao ver-nos passar, lança um grito de alarme e de espanto.

- Mzungu! Mzungu!

Não tem mais de três anos, usa um vestido com folhos e está visivelmente excitada. Aponta para nós, de olhos muito abertos, como se estivesse a ver extra -terrestres.
E nós, claro, rimos deliciadas com a ternura da cena.
A mãe acode ao chamamento, aflita, mas a sua expressão suaviza-se ao ver-nos. Com um sorriso tranquilo e divertido, pega na filha ao colo e aproxima-se de nós, aceitando os rebuçados que lhe damos.
Não é a primeira vez que por aqui se referem a nós desta maneira. Sabemos que mzungu significa “pessoa branca” em suhaili.
O que eu desconhecia era a origem da palavra. Descobri-a há dias na internet.
A palavra mzungu tem raiz no verbo zunguka, que significa "rodar, girar, andar por todo o lado".
Não fiquei surpreendida por aprender que a palavra foi originalmente aplicada aos portugueses, pois então!! Foram dos primeiros estrangeiros brancos a pisar Zanzibar, e … fartavam-se de girar por todo o lado.

Parece que a menina acertou duplamente ao chamar-nos mzungus!!


Foto: Muhipiti. Zanzibar, 2009

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Abraham no Pais das Especiarias


Fomos descobrir porque é que Zanzibar é conhecida como a “Spice Island”.

A 20 Km de Stone Town, ao fundo de uma estrada de terra batida, fica a plantação que vamos visitar. Altos coqueiros e bananeiras centenárias fornecem sombra a plantas e árvores de todas as espécies e a cabanas de adobe, à volta das quais algumas galinhas debicam o chão vermelho.

Connosco está Abraham, o nosso guia desde a chegada. Tem 37 anos e é com orgulho que tem escoltado estas quatro beldades (ainda que seja eu a dizê-lo) pela sua ilha. Creio que se sente um dos sultões polígamos que por vários séculos governaram Zanzibar.
É simpático, mas tem um sentido de humor um pouco … digamos …. apatetado. Já nos temos fartado de rir com algumas das suas tiradas. Lembro-me, por exemplo, de me ter dito que gostava de casar-se com uma mulher branca, mas que a mãe não aprovaria, pois as brancas são muito refilonas…. Ou daquela vez que depois de nos ter perguntado a que horas queríamos começar a excursão do dia seguinte e de termos respondido que às 10, afirmou que tínhamos mesmo de sair às 9h ou não teríamos tempo de ver tudo!!!....
Mas, hoje Abraham está muito concentrado no seu papel de professor. Diz que vai testar os nossos conhecimentos sobre o mundo vegetal que nos rodeia.
- What is this plant?, pergunta, apelando à nossa visão, tacto e olfacto.
Todas nós já visitámos plantações semelhantes a esta noutras partes do mundo e saímo-nos na perfeição no que toca à baunilha, pimenta, café, noz-moscada, anis, mandioca, gengibre, jaca e citronella.
No entanto, há espécies que nunca víramos, como as árvores do quinino e do iodo ou a planta de cujo pó as zanzibaritas extraem o baton. Também desconhecíamos (pelo menos eu) que o cravinho nasce numa árvore; que da árvore da canela se extrai a essência do Vick vapour rub (lembram-se?), e que os vários tipos de pimenta se obtêm a partir do mesmo bago.
O corpo já roliço do nosso sultão ficou ainda mais inchado quando lhe pedimos para repetir a explicação para que o pudéssemos filmar. Com uma jaca na mão, em jeito de microfone, e lançando olhares furtivos aos outros guias que o observavam trocistas, Abraham lá foi debitando:
“A pimenta fica verde se o bago for seco à sombra e preta se seco ao sol. A pimenta branca resulta de um bago demolhado, pelado e seco à sombra e a vermelha de um bago demolhado e seco ao sol.”
Para o fim, como pièce de résistance, ficou a subida ao coqueiro. Um rapaz com cerca de 18 anos começa a subir com a ajuda de apenas uma corda onde apoia os pés. O resto é pura força muscular, paixão e anos de prática. Os miúdos começam a subir aos coqueiros desde os 4 anos e param aos 25, idade a partir da qual se torna mais difícil sarar as fracturas frequentes.
Abraham parece um pouco perturbado com o nosso entusiasmo perante tal espectáculo (que já chegou ao Youtube).
- Oh, he is just showing-off… - murmura, amuado, enquanto a voz do rapaz faz ecoar pela selva de especiarias a tradicional canção “Jambo Bwana”.


Fotos: MLee e Muhipiti. Zanzibar, 2009

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Adivinhem quanto custa o jantar...!

Há um considerável distanciamento entre os momentos que vivemos em viagem e o que deles recordamos mais tarde.

Houve um jantar em Stone Town a que sempre nos referimos, na brincadeira, como "aquele em que fomos valentemente “roubadas”". A pedido de algumas senhoras, resolvi escrever sobre isso.
O texto original começava assim:
“Quando Fisherman George nos apresentou a conta ficámos abismadas. Tão caro?!!”

Tinha ficado com a ideia de que consumíramos apenas duas espetadas e uma coca-cola entre as quatro e que pagáramos por isso o nosso peso em ouro.

Assim, preparava-me para demonstrar que não tínhamos pago apenas o jantar, mas todo o ambiente em que a refeição decorrera …. e que isso não tinha preço.

A ideia era descrever a atmosfera que se vivia nessa noite nos Forodhani Gardens: o céu estrelado e a lua cheia; as bancadas de comida no centro do jardim, iluminadas apenas por candeeiros a petróleo; os homens, mulheres e crianças de vestes domingueiras, comendo em pratos de plástico, sentados em mantas; o ambiente de Pic nic nocturno em relvados impecavelmente tratados, sem que se visse lixo no chão.
Depois descreveria o pitoresco Fisherman George que nos cativou para a sua banca, apregoando: “Come sister, you eat now, you pay later” e a forma principesca como os seus empregados nos escoltaram para um local tranquilo e nos iam servindo solicitamente.
Por fim falaria da conversa que tive com um zanzibarita enorme, de jalaba branca e cofió dourado, que me explicou que Portugal em swahili se diz Ureno (literalmente “o reino”, já que os primeiros portugueses aqui chegados diziam que vinham do Reino de Portugal).

Bom! Tudo isto para justificar os TZN 52,000.00 que acabámos por pagar.

Foi então que, para que o registo ficasse completo, pedi a PL que me fornecesse a ementa dessa noite. E fiquei desolada! Afinal o jantar não tinha sido tão parco quanto me lembrava e senti a minha teoria da “compensação” a ir por água abaixo.

Pois, julgue o leitor, sabendo que o equivalente em euros daquele número astronómico é … 27.

Ementa:
2 bocas de sapateira
1 espetada de 4 camarões
1 espetada de lombo de lagosta simples
1 espetada de lombo de lagosta tikka massala
1 pratinho de batata frita + 2 de oferta a um grupo de crianças
1 nan com côco
1 nan com alho
1 coca-cola pequena
1 água 30cl
1 copo pequeno cana açúcar


Foto: MLee e Muhipiti. Stone Town, Zanzibar. 2009

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Intermezzo II


E pronto, lá deixei o blogue às moscas durante mais um mês. Lá se foram as boas intenções de escrever um post por semana.

Não me apetece escrever!
Esta ideia de juntar palavras e enviá-las para o buraco negro e vazio do cyber-espaço, às vezes, parece-me idiota e inútil.
Valerá o esforço? Hoje até do Pessoa duvido …
Será do calor?
Talvez seja do calor, mas só me apetecia estar deitada nesta espreguiçadeira áspera e bichosa. Sim, hoje apetecia-me estar numa praia!!!! (NESTA praia. Não em qualquer outra. O desespero ainda não me deu para querer estar no Algarve ou na Costa da Caparica!)
Será das incertezas que pairam sobre mim neste momento, indiferentes ao meu esforço para ignorá-las?
Será da falta de férias? De estar enfiada numa cave, sem ver a luz do dia, a cumprir uma sentença interminável pelo crime de …. sei lá…. de auto-infidelidade?

Férias.....!

Há dias fui tratar do visto para a próxima viagem. Estava calor e as ventoinhas espalhavam alguns murmúrios em hindi pela pequena sala da embaixada. Senti-me mais perto. Como se os três meses que faltam fossem voar, impulsionados por uma ventoinha mágica.

3 MESES  - Arrrgghhhhh!!!!

Bem, digam o que disserem, pelo menos hoje, valeu o esforço de mandar palavras para o vazio. Mesmo que se percam no cyber-lixo, eu já me sinto melhor.

Esqueçam a acidez do que está para cima e leiam apenas:
 “Hoje está calor. A minha mente viaja para locais paradisíacos. Promete voltar em breve com mais histórias de momentos (bem) passados.”

Foto: Muhipiti. Page, Zanzibar. 2009

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Muito Longe de Casa

Gonçalo Cadilhe publicou, na sua página do Facebook, o seguinte excerto de “Dias em Goa”.
"Será a língua portuguesa a pátria destes goeses? Se não, que outro significado atribuir ao gesto do senhor Miranda, da loja de fotocópias, há uns dias atrás? Quando lhe disse a minha nacionalidade, extraiu um livro de uma gaveta e exibiu-mo como uma bandeira: era o “Memorial do Convento”.
Escrevi o comentário: “A mim, só me saem Cristianos Ronaldos e afins”, pensando no deprimente chorrilho de nomes de jogadores de futebol que oiço sempre que digo que sou portuguesa. ("A minha Pátria é..... Cristiano Ronaldo?!)

Foi então, (bem, alguns dias depois) que me recordei deste episódio, passado numa loja de Stone Town.
Era uma loja pequena, como quase todas na cidade velha. Tinha as paredes forradas de quadros que retratavam, com as cores quentes de África, os seus animais, as suas gentes.
O dono era um jovem africano de ar afável que estava sentado à porta, pregando molduras.
Gostei de um dos quadros expostos e preparei-me para regatear. É um ritual que odeio e para o qual não tenho jeito nenhum. Por sorte, tal não sucede com as minhas amigas que são exímias nesta arte.
Sem apontar, para não demonstrar muito interesse (o que é sempre prejudicial numa negociação), tratei de lhes fazer ver qual o que queria comprar. Em português, naturalmente, para que não me entendesse o jovem.
“Quero aquele ali ao fundo.... o terceiro a contar da direita”.
Ao que o dono da loja responde, mal contendo o entusiasmo:
- São portuguesas?!!!! Eu sou de Moçambique!!!
Chamava-se Bernardo. Estava há 8 anos em Zanzibar, mas deixara a sua terra havia muito mais tempo. Para não se esquecer da língua portuguesa, lia e relia o mesmo livro, cujo o título era apropriado: “Muito Longe de Casa”.
Era visível o prazer que sentia em estar a falar connosco na língua que também era a sua.
Conversámos durante bastante tempo e, quando tivemos mesmo de nos ir embora, deixámos-lhe um livro em português, que uma de nós andava a ler. Agradeceu-nos com a promessa de que ensinaria o seu filho de 6 anos a falar a nossa língua.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dr. Livingstone, I presume...?!


Adoro esta frase!
Gosto de imaginar o jornalista H.M. Stanley a dizê-la, com um perfeito sotaque britânico, ao encontrar David Livingstone no coração da selva africana.
Repito a frase na minha mente, apurando o sotaque, acertando o ritmo das palavras com o dos meus passos enquanto percorro as ruas de Stone Town, preparando-me para o momento em que encontrarei o missionário escocês.
Não o próprio (obviamente!), mas o espírito do seu legado.
David Livingstone é mais conhecido pelas explorações que realizou na África Continental, mas muitas das suas expedições começaram ou terminaram em Zanzibar.

A rua estreita desagua numa pequena praça de forma irregular. Destacam-se dois edifícios altos: uma igreja anglicana e uma mesquita. Ao centro, uma árvore milenar.
Neste local existiu o maior mercado de escravos de Zanzibar.
Descemos às antigas catacumbas, hoje convertidas em museu, onde eram mantidos mais de 75 homens e mulheres, sem luz, sem sanitários e com muito pouca comida. As doenças proliferavam por entre as paredes de pedra que fortificam este espaço exíguo e de tectos baixos. Os poucos que sobreviviam a este inferno eram vendidos e transportados para a Europa e Estados Unidos, condenados a um purgatório de trabalhos forçados.
Atravessamos a praça e entramos na igreja. Conta-nos o guia que a pia baptismal foi colocada no sítio onde eram mortas as crianças escravas cujas mães tinham sido vendidas. O mármore do chão tem tons rosáceos, espelho do sangue inocente aí derramado. No entanto, o simbolismo redentor pretendido não teve eco na população de Stone Town do século XIX, princípios do Sec. XX, que se recusava a trazer as suas crianças para serem baptizadas num local de tão nefasta memória.
David Livingstone teve um papel decisivo na abolição da escravatura neste continente e,  polémicas à parte (Livingstone terá utilizado mão-de-obra escrava nas suas expedições), Zanzibar recorda-o com gratidão.
Morreu na Zâmbia em 1873. No altar da igreja onde estamos há um cruxifixo de madeira, esculpido a partir do tronco da árvore debaixo da qual o coração de Livingstone foi enterrado.

domingo, 23 de maio de 2010

As portas da Cidade de Pedra

“It is a city of brilliant sunshine and purple shadows; of dark entries and latticed windows; of mysterious stairways, and massive doors in grey walls which conceal one does not know what; of sun-streaked courtyards and glimpses of green gardens; of barred windows and ruined walls on which peacocks preen. It is a town of rich merchants and busy streets; of thronged market-places and clustered mansions. Over all there is the din of barter, of shouts from the harbour; the glamour of the sun, the magic of the sea and the rich savour of Eastern spice.
This is Zanzibar!”
(Major FB Pearce, 1919)

Noventa anos depois, isto ainda é Zanzibar!
Foi assim que senti Stone Town, á medida que deambulava pelas ruelas estreitas, observando as grandes portas de madeira pelas quais é tão famosa.
Os motivos decorativos entrelaçam parte da cultura suahili com influências indianas e árabes. As arcadas redondas são de origem indiana, enquanto que a ascendência árabe se reflecte nas arcadas quadradas e nas inscrições com frases do Corão. Os temas esculpidos são variados, mas não isentos de significado: as correntes que emolduram as portas evocam segurança, os lotus e as rosetas nas partes centrais representam a prosperidade e os peixes a fertilidade.
Independentemente do estilo a que pertencem, algumas apresentam uns espigões de metal salientes. Hoje têm uma função meramente decorativa, mas inicialmente o seu objectivo era o de impedir os elefantes de abalroarem  as casas.
Elefantes?! Em Zanzibar?!!
Pois, parece que sim, em tempos que já lá vão. Marco Polo relatou que viu por aqui bastantes, mas quando os pés lusitanos pisaram estas paragens, no século XVI, já os paquidermes eram lendas do passado.
De qualquer forma, foi tudo muito antes de qualquer destas portas ter sido construída. Os espigões metálicos que, na Índia, por exemplo, espicaçavam elefantes de guerra, em Zanzibar sempre tiveram a pacífica utilidade de oferecerem beleza.

Fotos: RFerreira. Zanzibar, 2009

terça-feira, 18 de maio de 2010

África Minha

A primeira vez que vi África, como tantas outras terras, foi no cinema. E, como por tantas outras terras, apaixonei-me de imediato!

Muito antes de Meryl Streep e Robert Redford sobrevoarem um lago pintalgado de flamingos cor de rosa, ao som de John Barry, a minha África era a dos anos dourados de Hollywood.
A começar pelo ruidoso leão da MGM (que, ao que parece, era de Dublin!) a cativar-me para um mundo de fantasia em que tudo era perfeito, asseado, glamoroso.
John Wayne caçava rinocerontes sem amarrotar as calças. Ava Gardner chegava ao mato com cinco malas Louis Vuitton, e tomava duche num improvisado chuveiro ao ar livre. Clark Gable jantava de smoking, Grace Kelly passeava-se na selva de lenço Hermés na cabeça e Elsa Martinelli, depois de horas a chocalhar em trilhos poeirentos numa carrinha de caixa aberta, dançava com maasais e tocava piano. E nenhum cabelo saía do lugar e as roupas estavam sempre limpas e engomadas.
Depois havia os animais.... elefantes bebés obedientes como cães, chitas que se deixavam acariciar, jibóias chamadas Joe e uma leoa chamada Elsa.
Material mais do que suficiente para espicaçar a imaginação de uma pré-adolescente, já para não falar nas hipopótamas bailarinas de Disney ou no nosso leão da Estrela. Filmes vistos vezes e vezes sem conta; o fascínio e a credulidade atiçando a expectativa de um dia vir a conhecer aquela terra tão longínqua quanto excitante, cheia de hatari e mogambo.
Quando, finalmente, pus o pé em África, já tinha idade para saber que a vida não é como nos filmes.

Chego apenas com uma mala (quase de cartão) e guarda-roupa by Decathlon. Depois de horas nos assentos do jeep, que fazem inveja a qualquer trampolim, os meus ossos não têm vontade de dançar e as minhas roupas suspiram por um ferro a vapor. E descubro que o pó africano tem uma personalidade própria, que se infiltra nos recantos mais esconsos, das lentes de contacto à cova dos dentes.  Ao segundo dia, as calças têm tanto pó que se seguram sozinhas em pé e, por mais banhos que tome, há sempre uns bocadinhos do trilho que me acompanham, furtivamente, ao jantar.
Porém, o fascínio com que agora observo os animais de tão perto é igual ao que sentia quando via aqueles filmes. Não. É maior, porque agora tem cheiro, tem sabor, tem vida e entranha-se na alma.
Exagero?
Acho que não.
Por muito que eu goste de estar em casa (e gosto muito), não há technicolor que reproduza os tons mesclados de um pôr-do-sol africano; nenhum dolby surround ecoa fielmente o grito de um elefante na savana; a gargalhada de uma hiena. E não há definição suficientemente alta para traduzir a emoção de observar sem obstáculos uma chita a caçar, um leopardo empoleirado numa árvore, uma leoa a dormir com as suas crias, embaladas pela brisa quente, à distância de um toque que sabemos impossível.
E porque, às vezes, a vida imita a arte, também eu tomei duche ao relento, caminhei com maasais e percorri trilhos numa carrinha de caixa aberta.
Mas isso...... são outros filmes!
Fotos: Parques Naturais de Manyara e Serengeti. Tanzania, 2009.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Viajar

"Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro."
Michel de Montaigne

Foto: Mlee ou RFerreira

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Call me Mr. Cheap!

A caminho do Lago Manyara paramos no povoado de Mto-wa-Mbu, para verificarmos o estado dos pneus. A rua principal é larga e flanqueada de fundas valetas, para lá das quais há vida, movimento e animação: homens que bebem cerveja de banana à porta de barracas , maasais que passam, enfeitados dos pés ao pescoço, e bancas onde se vendem frutas aromáticas e cangas coloridas.
Mto-wa-Mbu significa “rio dos mosquitos” na língua suahili.
Não vemos nem rio, nem mosquitos, mas somos confrontadas com um enxame de vendedores ambulantes que lutam entre si pela nossa atenção, gritando: “Buy from me! Support me, I’m bankrupt!”…
Apenas um resiste ao nosso desinteresse. É obvio que já não pretende vender, mas sim conversar.
- Call me Mr. Cheap, diz ele num tom de voz arrastado que me faz pensar que esteve a beber.
Bombardeia-me com perguntas sobre Portugal e o resto da Europa. Diz que já esteve em Paris, com a namorada que é  francesa, branca e tem 23 anos, mas ... é gorda, confessa, encolhendo os ombros.
É ela quem lhe paga os estudos. Já me apercebi de que estas histórias não são raras por estas bandas, mas Mr. Cheap não me quer explicar como se conheceram nem o motivo porque é a namorada que o sustenta. Em vez disso, conta-me que o irmão estuda no Michigan. É obvio que o admira, mas não quer ir ter com ele aos Estados Unidos. Prefere ir morar para a Hungria.... 
Estou perplexa, mas o meu jovem interlocutor não me dá tempo para pensar.
Pergunta-me quantas línguas falo e trocamos algumas palavras soltas em alemão e francês. Quando lhe falo em português, reconhece termos do espanhol e fica muito orgulhoso.
- I can talk to you. You teach me things...
Não percebo se o cumprimento é sincero ou se Mr. Cheap está à procura de outra patrocinadora, mas não resisto em continuar a conversa.

Ainda descubro que tem 17 anos e que o pai é guerreiro maasai, antes de ele virar o feitiço e tomar conta da conversa. É de uma astúcia irritante e parece saber sempre quando estou a mentir:
- What is your profession?
- I don’t have a job.
- Then how can you travel?…
De facto….
- How many children?
- None.
- You don’t have a husband?!!!
Credo!!... Parece o meu pai....
Recomponho-me e tento ser engraçada:
- I am waiting for a rich man to support me, so I don’t have to work …
Acho que não percebeu a brincadeira, mas sinto que subi na sua consideração. No meio de tanta pobreza, o viver de expedientes é comum e até apreciado.
Pergunta-me a idade. Minto de novo...
- 42.
- You seem 35!
Ufa.... vá lá! - penso, mas não perco pela demora:
- In Tanzania, you should have 3 daughters by now...
E termina, em jeito de consolo:
- But I like you!
Fotos: MLee e RFerreira

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Era uma vez ... em Stone Town

Era uma vez um menino que nasceu em Stone Town, chamado Farrokh Bulsara.
Era uma vez um menino que na Índia descobriu que tinha um dom musical.
Era uma vez um rapaz que em Inglaterra subiu ao trono da música.
Era uma vez um homem que amou de mais e, por isso, morreu ... cedo de mais.

Era uma vez uma menina que se deixou encantar pela música que ele criou.

Era uma vez uma mulher que viajou até Zanzibar e descobriu a casa onde ele nasceu, a escassos metros do mar.
Era uma vez uma mulher que adivinhou os traços desse menino nos rostos das crianças que correm por entre as ruelas estreitas da parte antiga da cidade.
Era uma vez uma mulher que ouviu, com os ouvidos da imaginação, o restolhar do mar turquesa nas areias farinhentas de Zanzibar, as cítaras que ecoam nos templos hindus e o chamamentos dos muezins, na música de Freddie Mercury.
Era uma vez ....

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sunset


"Na África Oriental, o pôr do Sol é de cortar a respiração, mas é tão rápido que parece que alguém pôs o DVD em rotação acelerada: o Sol desce sobre a poeira levantada pelo dia, lá no alto as nuvens resplandecem e todo o céu do ocidente se transforma num dossel de um cor-de-rosa quente como ouro derretido, com franjas cor de laranja e azul-arroexeado [...].
Só se conseguem contemplar parcelas do pôr-do-sol, porque o todo é amplo de mais. Mas esta magia encanta um par de minutos, e o melhor dura apenas alguns segundos, antes de se instalar a escuridão."
Texto - Paul Theroux, Dark Star Safari
Photo - R.Ferreira e M.Lee
Kimzikazi, Zanzibar

terça-feira, 6 de abril de 2010

A chita que excita!

Percorrendo os céus num balão de ar quente sobre a vasta planície do Serengeti. O sol mal nasceu e a atmosfera é mágica.
Lá em baixo, no capim, algo se move.
Uma chita persegue uma gazela Thompson, perante a excitação dos 16 passageiros do balão, que mal conseguem acreditar no espectáculo que lhes é dado presenciar. Uns incentivam a chita; outros temem pela gazela. A perseguição dura poucos segundos. O salto e a captura, menos ainda. A pobre gazela não teve a mínima hipótese.... ou teve....
Antes mesmo de a chita ter tempo de dizer "bon appetit", já miss Thompson se libertava dos seus dentes afiados. Sob o nosso olhar atónito (imagino o da chita!), a gazela dá dois passos cambaleantes, e afasta-se, sem pressas. Sabe que o felino já não tem fôlego para segui-la.
National Geographic, roi-te de inveja!!
Serengeti Balloon Safari, 24 de Setembro de 2009 Fotos: MLee

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Encontro com hora marcada

12h30. Cratera de Ngorongoro, Tanzania.
Depois de uma manhã passeando de jeep pelas estradas poeirentas do vulcão estinto, impressionadas com a grande concentração de animais que encontrámos neste espaço de 20 Km2, estamos, agora, prontas para ver o rinoceronte. O mais esquivo dos Big Five. Estima-se que a população de rinocerontes na cratera seja de 20 animais. Junte-se a isso a timidez natural da espécie e não é de estranhar que a maioria dos turistas que por aqui passa, parta sem os ver, ou se tenha de contentar com um vislumbre à distância.
Daqui a duas horas termina a nossa autorização de permanência e já estamos a perder a esperança. Não quero desanimar. Entro no carro e pergunto ao guia se é agora que vamos ver o rinoceronte. Luca sorri. Há 21 anos que aqui trabalha e já está habituado a esta obsessão pelo rino.
Insisto, na brincadeira:
- We would like to see the Rhino now, Luca. At 13h15, please.
Ri-se, mas diz, sem grande convicção:
 - We will try.
Seguimos viagem e deixamo-nos embalar pelos sulavancos do jeep nos trilhos tortuosos. A savana despida tem as cores castanhas da estação seca. O lago alcalino está salpicado de flamingos cor-de-rosa e nos pastos verdejantes que rodeiam a piscina dos hipopótamos, centenas de zebras e gnus pastam tranquilamente. A diversidade fica completa na pequena floresta de vegetação semi-tropical. Está um calor agradável e a beleza que nos rodeia compensa qualquer falha na contabilidade dos Big Five.
- Rhino!, sussurra Luca, de repente.
Esticamos o olhar para o horizonte e apuramos a visão.
Mas, não é preciso. Ele está aqui; à nossa frente: grande, imponente, colossal! Cruza o trilho, a não mais de 30 metros. Pára por uns instantes e afasta-se, olhando constantemente para trás, certificando-se de que não é seguido.
O relógio do jeep marca 13h20...
Foto: MLee

quarta-feira, 31 de março de 2010

Intermezzo


Reparei agora que não tenho "postado" deste Janeiro!! 
Como é possível??!!
O próprio blogue está surpreendido por eu lhe estar a dedicar algumas linhas....

Não é por falta de histórias de viagens. Tenho é sempre preguiça de colocá-las no "papel". É mais fácil (e divertido) partilhá-las ao vivo, entre amigos, com uma caipiroska na mão! E, especialmente, trocá-las por outras (as histórias; não as caipiroskas).

Estava há pouco a ler no excelente "Mochila às Costas" um artigo publicado no The Observer com o título "Why we Travel".   Dei comigo a pensar sobre isso, sem encontrar uma resposta que não fosse limitativa ou um perfeito cliché.
- Porque viajo?
- Porque sim.
- Porque não viajar seria impensável.
- Porque, como diria Hilary "It is there", o mundo, tão diferente e tão igual à minha aldeia, a chamar-me....
- Porque quero, porque preciso, porque....

Segundo o The Observer: "It has long been said that travel "broadens the mind". Now new evidence proves that jumping on a plane will not only make you smarter, but more open-minded and creative."

Talvez.... mas, enquanto a criatividade não me visita, deixo alguns aforismos de mentes mais "abonadas". Só para não deixar o blogue enferrujar...

Os filosóficos:
“A journey of a thousand miles must begin with a single step.” – Lao Tzu

“He who does not travel does not know the value of men.” – Moorish proverb

“Our battered suitcases were piled on the sidewalk again; we had longer ways to go. But no matter, the road is life.” – Jack Kerouac

“For my part, I travel not to go anywhere, but to go. I travel for travel’s sake. The great affair is to move.” – Robert Louis Stevenson

“One’s destination is never a place, but a new way of seeing things.” – Henry Miller

“Not all those who wander are lost.” – J. R. R. Tolkien

E os sarcásticos:
“I have found out that there ain’t no surer way to find out whether you like people or hate them than to travel with them.” – Mark Twain

“Too often travel, instead of broadening the mind, merely lengthens the conversation.” – Elizabeth Drew

“Travel is glamorous only in retrospect.” – Paul Theroux

Ou simplesmente:
“When we get home, home is still the same. But something in our mind has been changed, and that changes everything.”  - Jonah Lehrer  (The Observer, Sunday 14 March 2010)

Foto: RFerreira

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nas Núvens com George Clooney

 Em “Up in the Air” George Clooney representa o papel de um executivo cuja profissão é despedir pessoas, em empresas espalhadas pelos Estados Unidos. Naturalmente esquivo a todo o tipo de compromisso e desprezando as conveniências sociais, a personagem tem um lema - “Moving is living”. Assim, faz das viagens o seu universo, do aeroporto a sua casa e da itinerância o seu modo de vida. “Last year I spent 322 days on the road. Which means that I had to spend 43 miserable days at home.” Até ao dia em que a realidade o apanha e o afasta da sua zona de conforto, obrigando-o a repensar os seus objectivos e motivações.
O argumento (da autoria de Jason Reitman e Sheldon Turner) é brilhante e surpreende a vários níveis, servindo optimismo e cinismo em doses iguais.
Não sendo este um blogue de cinema, o que me leva a falar deste filme é a relação peculiar que o protagonista tem com os aeroportos. É talvez a vertente mais banal do filme, mas mesmo assim produz momentos inesquecíveis para quem – e passo o chavão – viajar é como respirar.

É inevitável não sorrir ao vê-lo fazer a mala. Toda a roupa bem dobrada e arrumada, sem hesitações, em compartimentos próprios, num trolley com as medidas exactas da bagagem de cabine. O mesmo é fechado sem que seja preciso fazer qualquer pressão adicional e, sem excesso de peso, desliza pelo aeroporto como um automóvel de F1. Uma lição para quem, como eu, fazer a mala é uma dor de cabeça.
Deliciosa é a cena da passagem pelos controlos de segurança. É como assistir a um bailado minuciosamente coreografado. Abre a mala e tira o portátil, coloca-o num tabuleiro separado das chaves e do telemóvel, descalça-se, mostra o bilhete, passa no detector de metais e, do outro lado, volta a colocar tudo na ordem inicial. Com precisão e harmonia, cada mão ocupada com tarefas diferentes, trabalhando para o mesmo objectivo. A eficácia em movimento.

Nem mesmo a escolha da fila em que se coloca é feita ao acaso."Never get behind people travelling with infants. I’ve never seen a stroller collapse in less than 20 minutes. Old people are worse. Their bodies are littered with hidden metal and they never seem to appreciate how little time they have left on Earth. [...] Asians. They are light packers, treasure efficiency and have a thing for slip-on shoes. God love’em.”
Desafio o leitor a não pensar desta forma da próxima vez que tiver de atravessar um controlo de segurança. Franzindo o sobrolho perante tal hino ao politicamente incorrecto... naturalmente!
Em voz-off, a personagem vai-nos brindando com pérolas como:
“ All the things you probably hate about airports – the recycled air, the airtificial lighting, the digital juice dispensers, the cheap sushi […] are the warm reminders that I am home.”
Dispenso o sushi e os sumos, mas o ar reciclado e a luz artificial ajudam a fortalecer a aura mística que os aeroportos têm para mim: o ponto de partida para aventuras em terras distantes e exóticas.

Porém, parte do prazer de viajar é saber que temos para onde regressar. Um porto seguro, onde descansar (sim, mais um chavão...!). Depois do contacto forçado com "o mundo exterior", tendo falhado na tentaiva de "assentar", a personagem regressa à realidade errática que sempre conheceu. Mas já não encontra nela qualquer consolo.
"Tonight, most people will be welcomed home by jumping dogs and squealing kids, their spouses will ask about their day and tonight they’ll sleep. The stars will wheel forth from their daytime hiding places, crowning their neighborhood with lights. And one of those lights, slightly brighter than the rest, will be my wing tip, passing over."


Foto: from Up in the Air
As minhas desculpas aos eventuais leitores que se sintam defraudados pelo facto do texto não ser tão excitante como o título o faria prever... ;)