segunda-feira, 11 de julho de 2011

Khajuraho ...... Uau!!

Para quem acaba de chegar de grandes metrópoles, sujas e barulhentas, como Delhi ou Agra, Khajuraho, com os seus 19 mil habitantes, apresenta-se como uma aldeia de ruas comparativamente vazias de gente, lixo e rebuliço.
Apesar de a paisagem, verdejante e fresca, ser um contraste bem-vindo depois da secura desértica do Rajastão, não foi para apreciar a tranquilidade rural que nos deslocámos ali.
Fomos atraídas pelos templos medievais hindus e jain, famosos pelas suas esculturas eróticas, património mundial da UNESCO. 


Chegámos de noite ao complexo ocidental de templos para assistir ao “light and sound show”. Já lá estavam outros turistas, sentados em cadeiras de plástico, num improvisado auditório ao ar livre. A única iluminação era fornecida pela lua envergonhada e o seu humilde séquito de estrelas. As cigarras cantavam baixinho e os turistas murmuravam em reverência ao que apenas se adivinhava à nossa volta, na expectativa de algo grandioso e extraordinário.

Uma música suave brotou da escuridão e sobre ela elevou-se a voz quente, densa e poderosa do actor indiano Amitabh Bachchan:

“This is the spirit of the builders of Khajuraho”


Começava assim o relato da história deste sítio incrível, mas confesso que não prestei muita atenção. Qualquer coisa sobre terem sido construídos entre 950 e 1150 durante a dinastia Chandela e de terem sido descobertos para o mundo por um militar inglês em finais do século XIX.
“Deve estar tudo no Wikipedia”, pensei e deixei-me levar pela música de fundo e pela voz; hipnotizada pela beleza do timbre, pelo ritmo onírico da dicção.
Frágeis luzes verdes e amarelas projectavam-se contra os templos, que áquela distância não eram mais do que monstros de pedra. Na noite de Khajuraho, o esplendor e a magia pertenceram apenas à voz de Bachchan.

Mas, de dia, a luz devolveu o espírito à pedra e foi a vez dos nossos olhos se deslumbrarem.


O meu talento descritivo recua humildemente perante tamanha profusão de beleza.
Por onde começar? 
Não há um milímetro de pedra que não tenha sido esculpido com sensibilidade e delicadesa. Deuses dançantes, amantes em êxtase, caravanas de camelos, sodomia e cenas domésticas. Tudo impressiona. Tudo comove! 
Os meus olhos não sabiam onde pousar; se nos diáfanos saris, na expressão dos olhares que contam histórias, na extravagância das posições eróticas.
Por fim, cansada de tentar fixar tanto pormenor, sentei-me na escadaria que leva a um dos templos. Era cedo e a maior parte dos visitantes ainda estaria nos hotéis. Os pássaros cantavam, os esquilos saltitavam na relva, uma mulher varria o passeio curvada sobre a pequenez da vassoura. 
Deixei o tempo passar, sentindo a poesia que emanava da pedra.


Fotos: Muhipiti. Khajuraho, Índia. Outubro 2010.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Citando Moravia

O eco da Índia de Moravía (1961) chega aos nossos dias (2010), ilustrado por Muhipiti.

“A Índia é um conceito da vida. (...) O bem conhecido conceito, segundo o qual tudo aquilo que parece real não o é, e tudo aquilo que não parece real é real. Deste conceito deriva a desvalorização completa da vida como coisa absurda e dolorosa, e a convicção de que o homem não deve agir para melhorar o mundo.”


"Também voltarei a ver este camponês (...), centenas de vezes, durante a viagem pela Índia; variará, mas pouco, a cor do turbante ou o tecido do pano, porém a sua expressão será sempre aquela, um misto de paciente resignação, de imperturbável ignorância e de ancestral melancolia.”

“(…) na Índia a mão que se estende para implorar caridade é idêntica à mão que se estende para colher um fruto que pende de um ramo e não pertence a ninguém”; (…) na origem daquele gesto encontra-se uma situação normal e geral de pobreza extrema, que muitas vezes acumula com um ofício exercido com competência e assiduidade. Deste modo, a esmola é quase uma obrigação para quem a dá e quase um direito para quem a pede.”


“O próprio fenómeno da mendicidade levanta a suspeita de que a pobreza na Índia não é um facto contigente e remediável, mas sim um traço constitutivo, de modo que modificá-la ou tentar anulá-la significaria alterar completamente o carácter do povo indiano.”

“(…) as lojas pequeníssimas, transbordantes de mercadorias, estão no alto, no cimo de quatro ou cinco degraus, porque o esgoto a céu aberto e pestilento escorre entre o passeio e as casas; vistas de baixo, com os seus velhos espelhos dourados, os seus tapetes puídos, as suas prateleiras decrépitas e os seus vendedores acocorados no chão, seduzem com a ilusão de hipotéticos produtos inéditos de um artesanato exótico e ingénuo. Mas é uma ilusão que pouco dura; subidos aqueles degraus, encontramo-nos perante os objectos do costume, fabricados em série e ainda por cima de fraca qualidade (…).”

“(…) o estrangeiro sentir-se-á continuamente surpreendido por ver os indianos dedicarem os cuidados mais meticulosos a ablusões e precauções que lhe parecem surpéfluas (…), e por outro lado ficarem completamente indiferentes perante a sordidez e a imundice que são próprias dos bairros mais pobres das suas cidades.”

Texto: Alberto Moravia, Uma Ideia da Índia (ed. Tinta da China)
Fotos: Muhipiti

terça-feira, 17 de maio de 2011

Uma valsa no Céu

Quando a conversa é voar de balão, as opiniões dividem-se entre: “Ah, já fiz, tá feito” e “Quero mais!!”
Descobri que me identifico com estes. Depois do excitante baptismo sobre a savana do Serengeti, não hesitei em repetir a experiência na Índia.
De madrugada, atravessamos as ruas de Jaipur, com destino a Amer. Paramos junto a uma clareira, onde jazem dois gigantescos farrapos coloridos à espera do sopro quente da vida.
O nosso motorista dos céus recebe-nos com um grande sorriso. Chama-se Fernando, é de Barcelona e está encantado por ter dos hermanas a bordo. Os restantes três passageiros são, sem surpresa, americanos reformados. Felizmente, desta vez, fomos dispensadas dos tradicionais oh my god!
Depois de um aromático e reconfortante chai, partimos, deslizando ao sabor suave do vento.
A neblina peganhenta que nos envolve turva um pouco a visão, mas ainda distingo duas galinholas e um veado correndo entre montes e vales pouco profundos, de vegetação quase desértica. O silêncio tranquilo e embalador, apenas interrompido pelo atiçar das chamas, compensa a falta de espectacularidade da paisagem.
Então, Fernando solta uma expressão animada, quando se apercebe que o vento hoje está generoso e nos conduz mesmo por cima do magnífico Forte de Amer, cujas imponentes muralhas abraçam um lago artificial.

Já não me lembro quanto tempo voámos. Sabe sempre a pouco.
Lentamente, o nosso balão vai descendo.
Fernando mudou-se para Jaipur com a família há dois anos e, desde então, faz este percurso duas vezes por dia, sempre que as condições atmosféricas o permitem. A sua experiência diz-lhe que é sempre preferível aterrar antes de sobrevoar a cidade. Desta vez, está a apontar para um terreno baldio com aspecto de campo de futebol da liga dos últimos.
Chegados a terra firme, aplaudimos e aguardamos autorização para sair da caixinha. Esperamos que o ajudante de Fernando vá pedir a alguém que abra o portão do campo, cujos muros têm mais de dois metros de altura.
Ali perto, quatro homens sikh, de tronco nu e turbante na cabeça, estão a jogar vólei. À nossa volta começa a juntar-se um grupo de crianças sujas e maltrapilhas. A sua expressão é de medo e curiosidade. Não sei porquê, mas lembram-me hienas vigiando uma presa que já tem dono.
O ajudante regressa com a notícia de que o portão não se abre. Toda aquela gente deve ter saltado o muro. A Fernando, não resta alternativa se não voltar a pôr o balão no ar, mas apenas o suficiente para que ele salte o muro sem voltar a ganhar os céus. E isso requer preparação.
 Os jogadores de vólei continuam alheios à nossa presença, como se fosse natural um balão daquele tamanho estar ali àquela hora. Já os miúdos vão ganhando confiança. Rendidos ao sorriso de Muhipiti e ao feitiço da sua máquina fotográfica, metem conversa, fazem poses e macacadas à nossa volta. E, finalmente, ajudam a içar o balão por cima do muro para fora do campo, onde a aventura termina.
Até à próxima.
Não.
Até às próximas!

Fotos: Muhipiti. Jaipur, Índia. 2010

domingo, 8 de maio de 2011

Liberdade ...

Ai que prazer
não cumprir um dever

Varanasi, Índia

Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.


Templo Jain. Bikaner, Índia

O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Varanasi, Índia

[...]

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Karni Mata, Índia

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Entre Bikaner e Jodhpur, Índia

Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Fatehpur Sikri, Índia

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca

Meherangarh Fort, Jodhpur, Índia
Texto: Fernando Pessoa
Fotos: Muhipiti

terça-feira, 29 de março de 2011

Hospital para Animais

"The greatness of a nation and its moral progress can be judged by the way its animals are treated”
Mohandas K. Ghandi
Uma espécie de edifício destaca-se na paisagem, quebrando a monotonia pálida e seca do deserto do Rajastão.
Harpal, o nosso motorista, encosta o carro à berma, provocando uma nuvem de pó. É através dela, e ainda dentro do carro, que tento perceber o que tenho à minha frente. Algumas vacas ossudas estão estacionadas à sombra de uma estrutura que apenas pode gabar-se de possuir um tecto assente em esqueléticos pilares metálicos. Umas estão deitadas, outras estão de pé. Todas parecem estar à espera de algo, mas tal como os seus compatriotas humanos, sem grandes expectativas e com total indiferença.
A minha primeira impressão é de que se trata de um mercado a céu quase aberto.

Como sempre, Harpal vem abrir a porta do jeep para que possamos sair. Só que, desta vez, o seu rosto não está aberto num sorriso, mas sim contraído numa expressão de dúvida, como se estivesse perdido na sua memória à procura de alguma coisa.

- Hospital!, diz ao fim de alguns segundos. E o seu olhar volta a brilhar.

Confesso que não era a palavra de que estava à espera, mas revela-se a chave para descodificar o que estou a ver.
Então reparo que todas as vacas têm alguma parte do corpo enfaixada, principalmente pernas e chifres.
Um pouco afastadas, do nosso lado direito, vejo agora umas jaulas. Aproximo-me e constato que os seus habitantes são coelhos, pombos e veados, cada um sofrendo de alguma maleita do corpo e, ouso dizê-lo face aos seus olhares tristes, da alma.

A ambulância, que agora observo do outro lado da rua, recolhe animais atropelados num raio de 40 Km e trá-los para aqui a fim de receberem os cuidados médicos adequados. 

Na maioria dos casos, são os próprios culpados que chamam a ambulância. Cabe-lhes suportarem os custos dos tratamentos e são obrigados a irem a tribunal. As penas chegam a ser de três anos de prisão, nos casos mais graves, em que é provocada a morte do animal. Matar um veado é particularmente ofensivo, já que este representa uma das incarnações de Budha.

Fotos: Muhipiti. Índia, 2010

quarta-feira, 2 de março de 2011

Índia na bruma

Esta noite sonhei que estava na Índia outra vez...


Não é verdade. Esta noite tive uma insónia horrível. Igual às que tantas vezes me mantinham acordada na Índia, ouvinte forçada dos concertos nocturnos: um cão uivando em Delhi, o arrulhar dos pombos em Mandawa, os fogos-de-artifício do Diwali, o restolhar misterioso e excitante da selva de Rathambore.


Se tivesse dormido e se tivesse sonhado com a Índia, vê-la-ia, certamente, como a vi na realidade: dissimulada na neblina, nunca se revelando na totalidade; uma promessa de exotismo e encanto que não se chega a cumprir. Senti-la-ia agora como a senti então; como a descreve Morávia: “[...] do mesmo modo que se sente, no escuro, a presença de alguém que não se vê, que guarda silêncio, no entanto está lá.”

Fotos: Muhipiti. Jodhpur e Agra. Índia, 2010.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os cães da Índia .... e eu.

Uma pesquisa rápida na internet e descubro que, afinal, os cães não foram assim tão abandonados pelas divindades. Não tiveram foi muita sorte no sorteio sagrado...


No Hinduísmo, o rato e o elefante estão associados a Ganesha, o deus da novas oportunidades,  o tigre  transporta a deusa Durga, a invencível, enquanto que  o pavão acompanha Saraswati, deusa da sabedoria.

Por sua vez, o cão era o mensageiro de Yama - deus da morte.

Será por isso que são tão ignorados e maltratados?

Noutro país que não a Índia, a ligação seria óbvia. Mas, aqui, onde a morte é, como diz Moravia “uma simples mudança de vestuário”...

Não estranha quem me conhece, que tenha andado por lá a fazer amizade com alguns canídeos. Descobri que são sociáveis, meigos, e naturalmente, carentes.

Claro que não serão todos assim....

Filosofias à parte, espero que haja esperança de melhores dias para a próxima geração.
"The greatness of a nation and its moral progress can be judged by the way its animals are treated”
Mohandas K. Ghandi


Fotos: Muhipiti in Goa, Varanasi e Bikaner. Índia, 2010