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sábado, 23 de outubro de 2010

Everybody is happy in Zanzibar!!

E chego finalmente ao último post sobre a Tanzânia. Mais uma história. Mais um momento…. O mais alto de uma viagem cheia de pontos altos. O mais difícil de descrever por ter sido o melhor, o mais espontâneo e o mais autêntico.
Por isso, segurem-se que este vai ser longo….!


A noite começou com o convite do dono do resort para irmos à aldeia próxima assistir aos festejos do final do Ramadão. Ainda hesitámos, divididas entre a curiosidade e a apreensão face ao que iríamos encontrar. Ole seria o nosso guia e protector.
Partimos a pé pela estrada poeirenta e de piso irregular. Os outros maasai do resort acompanham-nos durante parte do caminho. A lua está de tal maneira luminosa que faria inveja a qualquer candeeiro e não temos dificuldade em ver onde pomos os pés. Caminhamos sem pressa. O tempo está ameno e temos 2 Km pela frente. Vamo-nos cruzando com grupos de pessoas que regressam da festa. É um espectáculo estranho, este que protagonizamos: 4 mzungus caminhando na estrada, escoltadas por guerreiros. ML pergunta-me:
- Esta é a melhor parte da viagem, não é Rutix? Vais ter muito que escrever…!
De facto, penso, para escrever é preciso viver….
Os outros maasai depressa se cansam do nosso ritmo lento e, apressando o passo desaparecem na noite. Na orla da vila fazemos um desvio e entramos no recinto da feira, depois de termos pago 1,000 shellings cada uma e recebido em troca uma carimbadela na mão. Vamos caminhando lentamente por entre os jovens que dançam, namoram, fumam, conversam, bebem e olham para nós com curiosidade. Na pista de dança, Ole explica que a música que ouvimos é taraban, típica de Zanzibar. É difícil não deixar o corpo mover-se ao som deste ritmo africano com matizes asiáticas. Fazemos uma roda e ensaiamos uns passos de dança. Ás tantas, reparo na presença de alguém que se movimenta atrás de mim.
- Tens uma sombra, troça ML.
Pois…. 
Luto entre a vontade de me virar e dançar como deve ser e o sinal errado que isso poderia transmitir. Mesmo assim, tento virar-me, mas a sombra acompanha o meu movimento de maneira que nunca lhe consigo ver a cara. E, assim, continuamos a dançar, sob o olhar atento do nosso guarda-costas e o sorriso matreiro das minhas companheiras.
Terminada a música vamos até ao bar. A sombra segue-me e apresenta-se. Um nome tão impronunciável para mim como o meu o foi para ele. Num inglês alcoolizado diz “we danced together just now”. Bom, “together” não seria o termo que usaria, mas … 
Deixamos o bar e descemos as escadas de madeira que levam à praia. O reflexo da lua na água turquesa e nas areias finas proporciona uma luminosidade leitosa e mística. Sinto-me em estado de graça!
Muhipiti sugere que tiremos uma foto. Como não trouxemos máquina a única opção é o fotógrafo local que de uma cabana gasta criou um estúdio improvisado. Entramos e tiramos duas fotos com o nosso jovem maasai, contra cenários de uma piroseira antiquada. Bizarro, mas muito divertido!


Voltamos à praia e sentamo-nos na areia, ao pé do mar. Os acordes da discoteca chegam até nós e há casais que dançam; o rapaz movendo-se nas costas da rapariga. Ah!... Então é assim que se dança por estas paragens!!!...
O ambiente é mágico e descontraído e faz-me recordar as palavras de Abraham no dia da nossa chegada: “Everybody is happy in Zanzibar!
Debatemos se ficamos mais um pouco ou se está na hora de quebrar o encantamento e regressar. Passa da meia-noite, mas a atmosfera é irresistível e não estamos ansiosas por percorrer a pé os 2 Km que nos separam do resort.
Resignadas, abandonamos o recinto ao som das músicas de DJ Snake, jovem que Ole nos garante ser muito famoso neste cantinho do mundo. 
Fazemo-nos à estrada. Não andamos mais de 10 metros até ouvirmos barulho de motor atrás de nós. 
- It´s a truck. Not good for us, diz Ole.
De facto, trata-se de uma carrinha de caixa aberta. Antes de Ole ter tempo de mandar avançar o condutor já ML pôs o pé no pneu e subiu para a caixa. Subimos todas, seguidas por um incrédulo Ole. Foi o melhor trajecto da minha vida! Tal como Elsa Martinelli em Hatari …. mas sem as quedas….! Seguramo-nos os 5 à grelha da cabine e lá seguimos com a brisa amena da noite acariciando os nossos rostos sorridentes. Olho para Ole e pergunto-me o que pensará destas 4 portuguesas loucas e já com boa idade para terem juízo…. Impagável é também a expressão no rosto dos guardas maasai quando abrem o portão do resort e nos vêem descer do camião!
Despedimo-nos de Ole e, quando nos dirigimos para a nossa villa, o gerador estoira e a lua foi a única testemunha do nosso mergulho nocturno na piscina privada.
Everybody is happy in Zanzibar!!!!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O maasai tranquilo


Se alguma vez me tivessem dito que iria conversar no chat do Facebook com um autêntico maasai, de certeza que teria rido ou, pelo menos, esboçado um sorriso incrédulo.
E, no entanto….
Ole Mapashihaki era o guest relations do resort onde passámos os últimos dias de férias em Zanzibar. Lembro-me de ter achado bastante pitoresco o sermos recebidas na praia por este jovem muito alto e esguio, de sorriso bonacheirão, que envergava as vestes e os adornos guerreiros de uma tribo maasai. Á medida que o fui conhecendo apercebi-me de que, apesar de ter muito orgulho nas tradições da sua tribo, Ole não tem alma de guerreiro. O seu sonho é ser ranger num dos parques da Tanzânia.
Certa tarde, encontrou-me no pontão, onde me refugiava do sol escaldante mergulhando no vício da escrita. Tivemos, então, oportunidade de falar durante umas horas, à medida que a maré, esmeralda e cristalina, ia subindo e o sol se aproximava do ocaso.
Pergunta-me o que escrevo e quando lhe digo que é o diário da viagem quer saber se escreveria sobre ele. Aproveito a deixa para lhe fazer imensas perguntas a que ele vai respondendo num inglês pouco articulado mas bastante compreensível. Descobri que nasceu em Arusha, que tem 5 irmãos (dois rapazes e três raparigas) e que nunca saíra da Tanzânia. Pergunto-lhe se o cabelo comprido, que ostenta quase até aos calcanhares, é natural. Abana a cabeça e diz, pesaroso, que teve de o cortar porque a isso o obrigaram as regras rigorosas do colégio que frequentou.



Na noite anterior, Ole e os seus companheiros maasai (que zelam pela segurança do resort) tinham-nos brindado com um espectáculo de danças alegóricas. Aproveito agora para lhe perguntar o significado do que víramos. Na primeira dança, um homem matou um leão e começou a saltar para comemorar o seu domínio sobre o rei da selva. Os outros homens, ao ouvirem o relato de tais feitos, sentem inveja e tentam imitá-lo, competindo entre si pelo salto mais alto. A segunda dança representava um ritual de cortejamento. Os homens tentam atrair as mulheres fazendo rodopiar as suas longas cabeleiras como ventoinhas. Por sua vez, as mulheres tentam impressioná-los abanando os ombros e chocalhando os colares que levam ao pescoço.
Durante o interrogatório a que o submeti naquela tarde não pude deixar de reparar que Ole se continha para não me fazer perguntas também. Mais tarde, já através do Facebook, confessou-me que só não o fez porque eu era uma hóspede. Agora que éramos amigos já podia satisfazer a curiosidade. Nos meses que se seguiram ao meu regresso de férias fomos “chateando” com frequência, ainda que com alguma gaguez provocada pelas limitações de uma internet insular, alimentada por fracos geradores. Ultimamente não o tenho encontrado no pontão virtual e gosto de imaginar que está a conduzir turistas pelos trilhos de Ngorongoro.


Foto 1: Muhipiti. Zanzibar, 2009.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Suleman


“This is Suleman. He will be our monkey for today”, diz Abraham, apontando para um rapaz alto, magro, de pele escura e brilhante.
Considerei-o durante alguns segundos, tentando abstrair-me do comentário grosseiro do nosso guia. Era muito jovem (14 anos, soube mais tarde) e vestia jeans brancos e uma t-shirt amarela dos Led Zeppelin.
Suleman acompanhou-nos durante toda a visita à plantação, sempre num silêncio respeitoso e tímido. A sua função era a de colher espécimes de especiarias e frutos. Colocava-as nas cornucópias que cada uma de nós levava nas mãos em jeito de cesto de compras, e que ele fizera a partir de folhas de bananeira.
Este pequeno objecto era apenas uma amostra do que as suas jovens mãos conseguiam extrair dos recursos que tinha à volta. Antes de a visita terminar, o seu talento produzira óculos (ramas de ananás), colares (folhas e flores de mandioca), pulseiras, chapéus e ainda os saquinhos onde colocámos as especiarias vendidas na improvisada jungle boutique.
Calhou ser ele a escoltar-me de volta ao Jeep onde fui buscar mais rebuçados para a pequenada que por ali andava. No regresso, perguntou-me:
- Quantas línguas falas?
Respondi-lhe.
– E tu?, continuei.
- Inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e um bocadinho de holandês, disse orgulhoso.
- Quem te ensinou isso tudo?!!
- Os turistas.
- E, não vais à escola?
Encolhe os ombros:
- Hoje não há….
No fim da visita, cabe-lhe a ele cortar os bocadinhos de fruta que nos dão a provar. Com um olhar de desafio, Sule apresenta cada fruta nova numa língua diferente. Vou-lhe respondendo “muito bem” na língua apropriada e, de repente, é como se estivesse de volta a casa a ensinar a minha sobrinha.


Estou sozinha à espera que o resto das meninas acabe as compras.
Sule senta-se ao meu lado e, continuando ocupado a tecer uma folha de bananeira, pergunta, baixinho:
- Mama, siete contenta?
A pergunta deixa-me desconcertada. Em suaíli a palavra “mama” significa senhora e não mãe, mas foi dita com um tal carinho, que me emocionei.
De facto, este rapaz poderia bem ser meu filho...

Zanzibar, 2009

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mzungu, sou eu!


A menina abre a porta e, ao ver-nos passar, lança um grito de alarme e de espanto.

- Mzungu! Mzungu!

Não tem mais de três anos, usa um vestido com folhos e está visivelmente excitada. Aponta para nós, de olhos muito abertos, como se estivesse a ver extra -terrestres.
E nós, claro, rimos deliciadas com a ternura da cena.
A mãe acode ao chamamento, aflita, mas a sua expressão suaviza-se ao ver-nos. Com um sorriso tranquilo e divertido, pega na filha ao colo e aproxima-se de nós, aceitando os rebuçados que lhe damos.
Não é a primeira vez que por aqui se referem a nós desta maneira. Sabemos que mzungu significa “pessoa branca” em suhaili.
O que eu desconhecia era a origem da palavra. Descobri-a há dias na internet.
A palavra mzungu tem raiz no verbo zunguka, que significa "rodar, girar, andar por todo o lado".
Não fiquei surpreendida por aprender que a palavra foi originalmente aplicada aos portugueses, pois então!! Foram dos primeiros estrangeiros brancos a pisar Zanzibar, e … fartavam-se de girar por todo o lado.

Parece que a menina acertou duplamente ao chamar-nos mzungus!!


Foto: Muhipiti. Zanzibar, 2009

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Abraham no Pais das Especiarias


Fomos descobrir porque é que Zanzibar é conhecida como a “Spice Island”.

A 20 Km de Stone Town, ao fundo de uma estrada de terra batida, fica a plantação que vamos visitar. Altos coqueiros e bananeiras centenárias fornecem sombra a plantas e árvores de todas as espécies e a cabanas de adobe, à volta das quais algumas galinhas debicam o chão vermelho.

Connosco está Abraham, o nosso guia desde a chegada. Tem 37 anos e é com orgulho que tem escoltado estas quatro beldades (ainda que seja eu a dizê-lo) pela sua ilha. Creio que se sente um dos sultões polígamos que por vários séculos governaram Zanzibar.
É simpático, mas tem um sentido de humor um pouco … digamos …. apatetado. Já nos temos fartado de rir com algumas das suas tiradas. Lembro-me, por exemplo, de me ter dito que gostava de casar-se com uma mulher branca, mas que a mãe não aprovaria, pois as brancas são muito refilonas…. Ou daquela vez que depois de nos ter perguntado a que horas queríamos começar a excursão do dia seguinte e de termos respondido que às 10, afirmou que tínhamos mesmo de sair às 9h ou não teríamos tempo de ver tudo!!!....
Mas, hoje Abraham está muito concentrado no seu papel de professor. Diz que vai testar os nossos conhecimentos sobre o mundo vegetal que nos rodeia.
- What is this plant?, pergunta, apelando à nossa visão, tacto e olfacto.
Todas nós já visitámos plantações semelhantes a esta noutras partes do mundo e saímo-nos na perfeição no que toca à baunilha, pimenta, café, noz-moscada, anis, mandioca, gengibre, jaca e citronella.
No entanto, há espécies que nunca víramos, como as árvores do quinino e do iodo ou a planta de cujo pó as zanzibaritas extraem o baton. Também desconhecíamos (pelo menos eu) que o cravinho nasce numa árvore; que da árvore da canela se extrai a essência do Vick vapour rub (lembram-se?), e que os vários tipos de pimenta se obtêm a partir do mesmo bago.
O corpo já roliço do nosso sultão ficou ainda mais inchado quando lhe pedimos para repetir a explicação para que o pudéssemos filmar. Com uma jaca na mão, em jeito de microfone, e lançando olhares furtivos aos outros guias que o observavam trocistas, Abraham lá foi debitando:
“A pimenta fica verde se o bago for seco à sombra e preta se seco ao sol. A pimenta branca resulta de um bago demolhado, pelado e seco à sombra e a vermelha de um bago demolhado e seco ao sol.”
Para o fim, como pièce de résistance, ficou a subida ao coqueiro. Um rapaz com cerca de 18 anos começa a subir com a ajuda de apenas uma corda onde apoia os pés. O resto é pura força muscular, paixão e anos de prática. Os miúdos começam a subir aos coqueiros desde os 4 anos e param aos 25, idade a partir da qual se torna mais difícil sarar as fracturas frequentes.
Abraham parece um pouco perturbado com o nosso entusiasmo perante tal espectáculo (que já chegou ao Youtube).
- Oh, he is just showing-off… - murmura, amuado, enquanto a voz do rapaz faz ecoar pela selva de especiarias a tradicional canção “Jambo Bwana”.


Fotos: MLee e Muhipiti. Zanzibar, 2009

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Adivinhem quanto custa o jantar...!

Há um considerável distanciamento entre os momentos que vivemos em viagem e o que deles recordamos mais tarde.

Houve um jantar em Stone Town a que sempre nos referimos, na brincadeira, como "aquele em que fomos valentemente “roubadas”". A pedido de algumas senhoras, resolvi escrever sobre isso.
O texto original começava assim:
“Quando Fisherman George nos apresentou a conta ficámos abismadas. Tão caro?!!”

Tinha ficado com a ideia de que consumíramos apenas duas espetadas e uma coca-cola entre as quatro e que pagáramos por isso o nosso peso em ouro.

Assim, preparava-me para demonstrar que não tínhamos pago apenas o jantar, mas todo o ambiente em que a refeição decorrera …. e que isso não tinha preço.

A ideia era descrever a atmosfera que se vivia nessa noite nos Forodhani Gardens: o céu estrelado e a lua cheia; as bancadas de comida no centro do jardim, iluminadas apenas por candeeiros a petróleo; os homens, mulheres e crianças de vestes domingueiras, comendo em pratos de plástico, sentados em mantas; o ambiente de Pic nic nocturno em relvados impecavelmente tratados, sem que se visse lixo no chão.
Depois descreveria o pitoresco Fisherman George que nos cativou para a sua banca, apregoando: “Come sister, you eat now, you pay later” e a forma principesca como os seus empregados nos escoltaram para um local tranquilo e nos iam servindo solicitamente.
Por fim falaria da conversa que tive com um zanzibarita enorme, de jalaba branca e cofió dourado, que me explicou que Portugal em swahili se diz Ureno (literalmente “o reino”, já que os primeiros portugueses aqui chegados diziam que vinham do Reino de Portugal).

Bom! Tudo isto para justificar os TZN 52,000.00 que acabámos por pagar.

Foi então que, para que o registo ficasse completo, pedi a PL que me fornecesse a ementa dessa noite. E fiquei desolada! Afinal o jantar não tinha sido tão parco quanto me lembrava e senti a minha teoria da “compensação” a ir por água abaixo.

Pois, julgue o leitor, sabendo que o equivalente em euros daquele número astronómico é … 27.

Ementa:
2 bocas de sapateira
1 espetada de 4 camarões
1 espetada de lombo de lagosta simples
1 espetada de lombo de lagosta tikka massala
1 pratinho de batata frita + 2 de oferta a um grupo de crianças
1 nan com côco
1 nan com alho
1 coca-cola pequena
1 água 30cl
1 copo pequeno cana açúcar


Foto: MLee e Muhipiti. Stone Town, Zanzibar. 2009

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Intermezzo II


E pronto, lá deixei o blogue às moscas durante mais um mês. Lá se foram as boas intenções de escrever um post por semana.

Não me apetece escrever!
Esta ideia de juntar palavras e enviá-las para o buraco negro e vazio do cyber-espaço, às vezes, parece-me idiota e inútil.
Valerá o esforço? Hoje até do Pessoa duvido …
Será do calor?
Talvez seja do calor, mas só me apetecia estar deitada nesta espreguiçadeira áspera e bichosa. Sim, hoje apetecia-me estar numa praia!!!! (NESTA praia. Não em qualquer outra. O desespero ainda não me deu para querer estar no Algarve ou na Costa da Caparica!)
Será das incertezas que pairam sobre mim neste momento, indiferentes ao meu esforço para ignorá-las?
Será da falta de férias? De estar enfiada numa cave, sem ver a luz do dia, a cumprir uma sentença interminável pelo crime de …. sei lá…. de auto-infidelidade?

Férias.....!

Há dias fui tratar do visto para a próxima viagem. Estava calor e as ventoinhas espalhavam alguns murmúrios em hindi pela pequena sala da embaixada. Senti-me mais perto. Como se os três meses que faltam fossem voar, impulsionados por uma ventoinha mágica.

3 MESES  - Arrrgghhhhh!!!!

Bem, digam o que disserem, pelo menos hoje, valeu o esforço de mandar palavras para o vazio. Mesmo que se percam no cyber-lixo, eu já me sinto melhor.

Esqueçam a acidez do que está para cima e leiam apenas:
 “Hoje está calor. A minha mente viaja para locais paradisíacos. Promete voltar em breve com mais histórias de momentos (bem) passados.”

Foto: Muhipiti. Page, Zanzibar. 2009

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Muito Longe de Casa

Gonçalo Cadilhe publicou, na sua página do Facebook, o seguinte excerto de “Dias em Goa”.
"Será a língua portuguesa a pátria destes goeses? Se não, que outro significado atribuir ao gesto do senhor Miranda, da loja de fotocópias, há uns dias atrás? Quando lhe disse a minha nacionalidade, extraiu um livro de uma gaveta e exibiu-mo como uma bandeira: era o “Memorial do Convento”.
Escrevi o comentário: “A mim, só me saem Cristianos Ronaldos e afins”, pensando no deprimente chorrilho de nomes de jogadores de futebol que oiço sempre que digo que sou portuguesa. ("A minha Pátria é..... Cristiano Ronaldo?!)

Foi então, (bem, alguns dias depois) que me recordei deste episódio, passado numa loja de Stone Town.
Era uma loja pequena, como quase todas na cidade velha. Tinha as paredes forradas de quadros que retratavam, com as cores quentes de África, os seus animais, as suas gentes.
O dono era um jovem africano de ar afável que estava sentado à porta, pregando molduras.
Gostei de um dos quadros expostos e preparei-me para regatear. É um ritual que odeio e para o qual não tenho jeito nenhum. Por sorte, tal não sucede com as minhas amigas que são exímias nesta arte.
Sem apontar, para não demonstrar muito interesse (o que é sempre prejudicial numa negociação), tratei de lhes fazer ver qual o que queria comprar. Em português, naturalmente, para que não me entendesse o jovem.
“Quero aquele ali ao fundo.... o terceiro a contar da direita”.
Ao que o dono da loja responde, mal contendo o entusiasmo:
- São portuguesas?!!!! Eu sou de Moçambique!!!
Chamava-se Bernardo. Estava há 8 anos em Zanzibar, mas deixara a sua terra havia muito mais tempo. Para não se esquecer da língua portuguesa, lia e relia o mesmo livro, cujo o título era apropriado: “Muito Longe de Casa”.
Era visível o prazer que sentia em estar a falar connosco na língua que também era a sua.
Conversámos durante bastante tempo e, quando tivemos mesmo de nos ir embora, deixámos-lhe um livro em português, que uma de nós andava a ler. Agradeceu-nos com a promessa de que ensinaria o seu filho de 6 anos a falar a nossa língua.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dr. Livingstone, I presume...?!


Adoro esta frase!
Gosto de imaginar o jornalista H.M. Stanley a dizê-la, com um perfeito sotaque britânico, ao encontrar David Livingstone no coração da selva africana.
Repito a frase na minha mente, apurando o sotaque, acertando o ritmo das palavras com o dos meus passos enquanto percorro as ruas de Stone Town, preparando-me para o momento em que encontrarei o missionário escocês.
Não o próprio (obviamente!), mas o espírito do seu legado.
David Livingstone é mais conhecido pelas explorações que realizou na África Continental, mas muitas das suas expedições começaram ou terminaram em Zanzibar.

A rua estreita desagua numa pequena praça de forma irregular. Destacam-se dois edifícios altos: uma igreja anglicana e uma mesquita. Ao centro, uma árvore milenar.
Neste local existiu o maior mercado de escravos de Zanzibar.
Descemos às antigas catacumbas, hoje convertidas em museu, onde eram mantidos mais de 75 homens e mulheres, sem luz, sem sanitários e com muito pouca comida. As doenças proliferavam por entre as paredes de pedra que fortificam este espaço exíguo e de tectos baixos. Os poucos que sobreviviam a este inferno eram vendidos e transportados para a Europa e Estados Unidos, condenados a um purgatório de trabalhos forçados.
Atravessamos a praça e entramos na igreja. Conta-nos o guia que a pia baptismal foi colocada no sítio onde eram mortas as crianças escravas cujas mães tinham sido vendidas. O mármore do chão tem tons rosáceos, espelho do sangue inocente aí derramado. No entanto, o simbolismo redentor pretendido não teve eco na população de Stone Town do século XIX, princípios do Sec. XX, que se recusava a trazer as suas crianças para serem baptizadas num local de tão nefasta memória.
David Livingstone teve um papel decisivo na abolição da escravatura neste continente e,  polémicas à parte (Livingstone terá utilizado mão-de-obra escrava nas suas expedições), Zanzibar recorda-o com gratidão.
Morreu na Zâmbia em 1873. No altar da igreja onde estamos há um cruxifixo de madeira, esculpido a partir do tronco da árvore debaixo da qual o coração de Livingstone foi enterrado.

domingo, 23 de maio de 2010

As portas da Cidade de Pedra

“It is a city of brilliant sunshine and purple shadows; of dark entries and latticed windows; of mysterious stairways, and massive doors in grey walls which conceal one does not know what; of sun-streaked courtyards and glimpses of green gardens; of barred windows and ruined walls on which peacocks preen. It is a town of rich merchants and busy streets; of thronged market-places and clustered mansions. Over all there is the din of barter, of shouts from the harbour; the glamour of the sun, the magic of the sea and the rich savour of Eastern spice.
This is Zanzibar!”
(Major FB Pearce, 1919)

Noventa anos depois, isto ainda é Zanzibar!
Foi assim que senti Stone Town, á medida que deambulava pelas ruelas estreitas, observando as grandes portas de madeira pelas quais é tão famosa.
Os motivos decorativos entrelaçam parte da cultura suahili com influências indianas e árabes. As arcadas redondas são de origem indiana, enquanto que a ascendência árabe se reflecte nas arcadas quadradas e nas inscrições com frases do Corão. Os temas esculpidos são variados, mas não isentos de significado: as correntes que emolduram as portas evocam segurança, os lotus e as rosetas nas partes centrais representam a prosperidade e os peixes a fertilidade.
Independentemente do estilo a que pertencem, algumas apresentam uns espigões de metal salientes. Hoje têm uma função meramente decorativa, mas inicialmente o seu objectivo era o de impedir os elefantes de abalroarem  as casas.
Elefantes?! Em Zanzibar?!!
Pois, parece que sim, em tempos que já lá vão. Marco Polo relatou que viu por aqui bastantes, mas quando os pés lusitanos pisaram estas paragens, no século XVI, já os paquidermes eram lendas do passado.
De qualquer forma, foi tudo muito antes de qualquer destas portas ter sido construída. Os espigões metálicos que, na Índia, por exemplo, espicaçavam elefantes de guerra, em Zanzibar sempre tiveram a pacífica utilidade de oferecerem beleza.

Fotos: RFerreira. Zanzibar, 2009

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Era uma vez ... em Stone Town

Era uma vez um menino que nasceu em Stone Town, chamado Farrokh Bulsara.
Era uma vez um menino que na Índia descobriu que tinha um dom musical.
Era uma vez um rapaz que em Inglaterra subiu ao trono da música.
Era uma vez um homem que amou de mais e, por isso, morreu ... cedo de mais.

Era uma vez uma menina que se deixou encantar pela música que ele criou.

Era uma vez uma mulher que viajou até Zanzibar e descobriu a casa onde ele nasceu, a escassos metros do mar.
Era uma vez uma mulher que adivinhou os traços desse menino nos rostos das crianças que correm por entre as ruelas estreitas da parte antiga da cidade.
Era uma vez uma mulher que ouviu, com os ouvidos da imaginação, o restolhar do mar turquesa nas areias farinhentas de Zanzibar, as cítaras que ecoam nos templos hindus e o chamamentos dos muezins, na música de Freddie Mercury.
Era uma vez ....

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sunset


"Na África Oriental, o pôr do Sol é de cortar a respiração, mas é tão rápido que parece que alguém pôs o DVD em rotação acelerada: o Sol desce sobre a poeira levantada pelo dia, lá no alto as nuvens resplandecem e todo o céu do ocidente se transforma num dossel de um cor-de-rosa quente como ouro derretido, com franjas cor de laranja e azul-arroexeado [...].
Só se conseguem contemplar parcelas do pôr-do-sol, porque o todo é amplo de mais. Mas esta magia encanta um par de minutos, e o melhor dura apenas alguns segundos, antes de se instalar a escuridão."
Texto - Paul Theroux, Dark Star Safari
Photo - R.Ferreira e M.Lee
Kimzikazi, Zanzibar